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20 de maio de 2026 · 3 min de leitura

Clube de leitura : Olhos d’Água

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Estava a escrever uma introdução ao texto que se segue, escrito pela Janaina, participante e dinamizadora das conversas no último clube do livro, quando me apercebi que ela já o tinha feito no seu próprio texto. Por isso, não me resta senão dar lugar às suas palavras.

— Obrigado, Mathieu, és mesmo uma pessoa incrível.

— De nada, Janaina, não faço nada de especial, sabes, limito-me a ser eu mesmo.

— E já chega. A luz da tua alma deslumbra todo o Aveiro. Não percebo como é que as pessoas vão à praia em vez de ir ao teu café, bronzeariam o dobro mais depressa.

— Haha, para, senão vai notar-se que estou completamente a inventar esta conversa…

Hum… Bom, deixo-vos com a Janaina.



O que “Olhos d’Água” faz com quem lê

Nesta terça-feira, o nosso clube do livro se reuniu em torno de Olhos d’Água, de Conceição Evaristo, e a conversa não poderia ter sido mais interessante. Entre páginas marcadas e impressões compartilhadas, fomos nos aproximando de uma obra provocativa e nada óbvia.

Conceição Evaristo é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Nascida em 1946, em Belo Horizonte, no maravilhoso estado de Minas Gerais (estou me gabando da minha terra, claramente rsss), cresceu em uma realidade marcada por dificuldades sociais. Aos 27 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi professora concursada e, posteriormente, cursou graduação, mestrado e doutorado em Letras e Literatura. Também lecionou na Universidade Federal Fluminense e iniciou sua vida literária publicando na série Cadernos Negros, do grupo Quilombhoje.

Conceição construiu, ao longo de sua trajetória, uma escrita profundamente comprometida com a memória, a experiência e a coletividade. É dela o conceito de “escrevivência”, uma forma de narrar que nasce da vida vivida, especialmente das experiências de mulheres negras, e que transforma a escrita em um gesto de resistência e elaboração.

Os contos de Olhos d’Água nos trouxeram reflexões importantes e, em muitos momentos, nos tiraram de uma zona de conforto. A escrita de Conceição é direta, sensível e, ao mesmo tempo, visceral. Logo nas primeiras páginas do primeiro conto, já conseguimos perceber uma prosa poética envolvente, em que, mesmo com o incômodo muitas vezes causado diante da realidade dura das histórias, somos tocados e sentimos identificação e empatia pelas personagens.

Ao nos reunirmos para conversar sobre o livro, algo se amplia. A leitura compartilhada abriu espaço para diferentes olhares, interpretações e afetos. A multiculturalidade presente no grupo tornou a troca ainda mais rica: experiências foram compartilhadas, escutas foram feitas com cuidado e cada pessoa pôde sair dali com novas perspectivas, atravessadas pelo que leu e também pelo que ouviu. Eu cheguei a ver olhos lacrimejantes ao compartilhar a leitura de pequenas partes muito inspiradoras do livro. Foi bem bonito vivenciar isso. : )

O espaço segue aberto para quem quiser chegar. Para quem gosta de ler, para quem quer voltar a ler ou até para quem está tentando começar. Estar entre pessoas pode ser um bom caminho para construir ou retomar o hábito da leitura.

O próximo encontro acontece no final de abril. É só ficar atento ao calendário do café livraria PEF e se juntar a nós.

Até o próximo encontro,

Janaina Bacha

Psicóloga e mediadora de conexões humanas pelas artes e suas narrativas.



Obrigado à Janaina por ter escrito estas palavras, que espero que vos dêem vontade de ler esta colectânea de contos. Quanto a mim, não tenho nada a dizer sobre ela, pois não a li, com o espírito atormentado pelo futuro incerto do PEF.

Quero por isso agradecer-lhe a ela, e aos participantes do clube do livro. Fico feliz por ver a cultura viver desta forma. Saibam, no entanto, que este clube é quase inteiramente feminino. Então rapazes, não sabem ler ou quê?

No próximo clube do livro, falaremos de A Quinta dos Animais, de George Orwell. Não hesitem em contactar-me se quiserem participar — terá lugar na terça-feira, 28 de abril, das 18h30 às 20h00.

Até breve, Mathieu

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