20 de maio de 2026 · 4 min de leitura
Fazemos o balanço, com calma.
É domingo, 19 de abril de 2026, são 23h27 e ainda estou sentado num dos sofás do café-livraria enquanto escrevo esta frase. No entanto, fechei às 18h30, como todos os domingos. Mas como todos os domingos, fico, peço uma pizza, vejo uma série e o tempo passa sem que eu me aperceba.
Estou esgotado da minha semana, estar em casa, envolto na minha edredão, a rir e a emocionar-me com um episódio de Shrinking (que vos recomendo) ou a ressonar ao ritmo de uma locomotiva a vapor (é mentira, não faço a mínima ideia do ritmo de uma locomotiva a vapor e não ressono), mas não, em vez disso, estou na PEF, à vista dos poucos transeuntes que erram pelas ruas, porque este lugar é também a minha casa. É até mais do que isso, é uma parte de mim. Uma parte de mim que amo com todo o meu coração, mas que às vezes detesto ainda mais forte.
Já faz um ano que me bato para que esta parte de mim exista, que outros também se batem, como os meus pais ou outros membros da minha família que vêm às vezes fazer de funcionários de graça, como o meu irmão que não hesita em pôr-me as ideias no lugar ao telefone quando preciso (acho que ele gosta de fazer isso), como clientes habituais que me encorajam ou me sugerem ideias, como pessoas de passagem que saem com um pequeno elogio ao lugar.
Já um ano.
Recentemente, uma cliente habitual disse-me que para certas pessoas, a Pela Estrada Fora se tinha tornado um refúgio. O que responder a isso? Existe alguma resposta à altura?
Já um ano e talvez seja altura de fazer um balanço.
Há vários anos que tenho o projeto de abrir uma livraria. Mas nos dias de hoje, o conceito de livraria a solo é complicado de criar e fazer viver. Ou tem de ser especializada, ou tem de estar numa área geográfica que careça desse acesso à cultura, ou tem de haver outra coisa a par. Não sendo um leitor especialista num género qualquer e sentindo-me bem em Aveiro, a ideia do café-livraria surgiu naturalmente.
E ao fim de um ano, posso dizer que as coisas não são como as tinha imaginado.
Não tenho uma livraria/café/espaço de eventos, mas sim um espaço de eventos/café/livraria. Completamente o inverso do que desejava.
E isto não é sem consequências. O meu moral ressente-se, sobretudo ultimamente. Fiz-me muitas perguntas, incluindo a de saber se queria continuar. Certo, financeiramente as coisas melhoram, o que é ótimo, mas o que resta do meu projeto inicial?
Provavelmente não me conhecem suficientemente bem para saber que tenho um problema: o de estar constantemente a fazer perguntas, úteis ou inúteis, de estar constantemente a analisar as coisas ao ponto de me perder muitas vezes no que faço ou digo. Todos estes questionamentos acabaram por me fazer perder a motivação e trabalhar em câmara lenta, acumulando atrasos em muitas das minhas vontades e projetos e paralisando o avanço de outros (incluindo esta newsletter).
Hoje retomo o fôlego, mas continua a ser complicado. Mesmo que a motivação tenha voltado, o meu cansaço emocional acabou por criar cansaço físico, tornando-me mais frágil e à flor da pele. Como recuperar estes diferentes atrasos e receber-vos da melhor maneira se tenho a impressão de ter o rosto colado a uma parede, incapaz de ganhar perspetiva e encontrar as soluções para me recolocar nos trilhos?
É estranho. Quando comecei este artigo, estava convicto de estar a fazer um balanço do café-livraria, quando afinal estou a fazer um balanço de mim mesmo. Mas a resposta a esta estranheza talvez se encontre no segundo parágrafo. A Pela Estrada Fora é uma parte de mim.
E de qualquer forma, que tipo de balanço esperava fazer? Sou um sonhador, os números interessam-me pouco. Para mim, a PEF não é um comércio, mas uma experiência, um lugar de vida para todas e todos os que desejam sair dos caminhos batidos, sair desta velocidade louca que a sociedade nos pede para seguir. Pouco importa que a PEF seja um sucesso ou um fracasso, o importante é ter proposto e continuar a propor algo diferente. Portanto o balanço é este: estou orgulhoso do que realizei, estou orgulhoso de ver que há pessoas que se sentem bem aqui, orgulhoso de ver pessoas a trabalhar, a estudar, a ler, a discutir, a jogar, a rir. Estou orgulhoso da PEF e continuarei a estar orgulhoso, mesmo que as coisas devessem parar amanhã. E isso é graças a vós.
Faltaram mesmo piadas neste artigo, não acham?
Mathieu
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Comentários (1)
- PPedro Almeida2 de jun às 17h19
Obrigado por este espaço que é um oásis, pelas iguarias que têm o sabor desse amor todo, pelos livros, pelos eventos imaginativos que nos aproximam uns dos outros, pela tua maneira de ser, sempre aberta e generosa, pelo sentido de comunidade que estimulas e pelo teu contributo para um mundo melhor, mais culto, mais sensível, mais justo e fraterno. Obrigado por sonhares assim e por mostrares que há sempre alguém que sonha com o mesmo mundo que nos move. Um abraço forte!
